terça-feira, 4 de março de 2014

A primeira tradução do Alcorão em português

Novamente, voltamos ao tema da tradução do Sagrado Alcorão ao vernáculo, com a clareza de que o Livro Evidente deve ser lido sempre no original, em árabe clássico.

É com inteira razão que Rafael Cansinos Assens, no prólogo à sua versão em espanhol do Nobre Alcorão (Madrid, Aguilar, 1951, página 31), afirma que não somente nenhuma das traduções alcorânicas é perfeita como é impossível que alguma o seja nunca.
E acrescenta: "El Korán, aún más que los grandes libros clásicos latinos y griegos, es, por el tono de su inspiración y la índole particular de su lengua, un libro que nunca podrá verterse a otro idioma en un molde perfecto."

Assim, numa modesta tentativa de levantamento das edições em português, consultamos as referências bibliográficas disponíveis (vide as fontes, ao final) para listarmos as traduções em ordem cronológica de publicação e chegarmos, quiçá, à primeira delas.

Na introdução à sua erudita tradução ao português do Nobre Alcorão (2ª edição, Lisboa, 1980, páginas 4-7), o Professor José Pedro Machado faz um inventário de manuscritos inéditos do Alcorão em bibliotecas portuguesas, com os seguintes resultados:
● Biblioteca Nacional de Lisboa:
- Manuscrito 1-P-5-20: Extractos do Alcorão.
- Manuscrito 3-Y-4-57: Alcorão, acabado de copiar no mês de Sha'aban do ano 1011 da Hégira (janeiro de 1603).
● Biblioteca de Évora:
- Manuscrito 5-Códice CXVI/1-40: Exemplar escrito em belos caracteres magrebinos a preto, vocalização a encarnado, mas os outros sinais auxiliares a verde, excepto a pontuação e o u indeterminado ou adverbial, que são a amarelo. Contém 64 folhas de texto em excelente papel calandrado e mais 4 de guarda. Al Korano, com versículos das suras 86 e 87 e a sura 4. Com explicações em latim, parece ter usado como referência a tradução inglesa de George Sale, cuja primeira edição ocorreu em 1734.
● Biblioteca da Academia de Ciências de Lisboa:
- Manuscrito 6-Manuscrito nº 435: Códice encadernado, de folhas não numeradas. O título das suras e a separação dos versículos são a encarnado. Caligrafia magrebina bastante legível. Trata-se de um exemplar do Alcorão encontrado em uma "preza" que se fez no Mediterrâneo (notícia de 1825).

Nenhum dos manuscritos acima, como se pode presumir, constitui uma tradução ao idioma português do Nobre Alcorão.

A princípio, pudemos então levantar, em ordem cronológica, as traduções ao português do Nobre Alcorão, segundo a data da primeira edição:

 Traduções parciais:
  • 1942 - Jamil Almansur Haddad (muçulmano).
  • 1943 - Agostinho da Silva (cristão católico?).
  • 1970 - F. Abu Iúçuf, pseudônimo literário de Francisco José Velozo (cristão católico?).
  • 1971 - Suleiman Valy Mamede (muçulmano).
 Traduções completas:
  • 1961 - Nagib Modad (druso).
  • 1964 - Bento de Castro, pseudônimo de Constantino de Castro Lopo (cristão católico?).
  • 1974 - Samir El Hayek (muçulmano).
  • 1978 - Américo de Carvalho (cristão católico?).
  • 1979 - José Pedro Machado (cristão católico?).
  • 1980 - Mansour Challita (cristão maronita).
  • 1988 - Iqbal Ahmad Najam e Edelweiss de Almeida Dias (ahmadia).
  • 1991 - Youssuf Adamgy (muçulmano).
  • 2005 - Helmi Nasr (muçulmano).
O ilustre Doutor Muhammad Hamidullah, em sua tradução ao francês do Nobre Alcorão (Le Saint Coran, 12ª edição, Maison d'Ennour, 1986, página LXXXIX), ao apresentar uma copiosa lista de traduções a dezenas de idiomas, dá-nos a primeira pista de haver uma edição anterior às acima citadas. Por uma comunicação da Biblioteca Imperial de Calcutá (Índia), datada de 1946, Hamidullah informa (no item 1 de sua bibliografia) a existência de uma tradução ao idioma português, com data de 1882, por Bucaraviego, não informando, contudo, se este seria o tradutor ou o editor. A seguir, no item 2, Hamidullah descreve uma tradução anônima: O Alcorão, Traducção portugueza cuidadosamente revista, Paris, 1882, e questiona, com dúvida, se não seria a mesma que a precedente (i.e., por Bucaraviego). Em seguida, no item 4, Hamidullah dá a notícia de outra (?) tradução anônima: O Alcorão, Traducção portugueza cuidadosamente revista, avec titre en caràcteres arabes, Rio de Janeiro, Garnier, s.d.

Parece-nos bastante plausível a suposição de que as edições referidas por Hamidullah sejam a mesma.

De sua parte, Míkel de Epalza, na obra El Corán y sus traducciones: propuestas (Universidad de Alicante, 2008, página 116), enumera duas traduções anônimas ao português na sua lista. A primeira seria de um tradutor anônimo português, de 1882, uma edição impressa na França. E Epalza acrescenta, citando Sidarus [ou seja, Adel Sidarus, em Nota Sobre as Traduções Portuguesas do Corão, in: Revista Qurtuba, Córdoba, volume 5, 2000, páginas 277-280]: "Exemplar não consultado. Informação da BN da França. Haverá qualquer ligação com a versão francesa publicada no ano seguinte (reimpressão 1923) por Garnier Frères, sob o título Le Koran. Précédé d'un abrégé de la vie de Mahomet [x-533p.]". Se assim for, este tradutor anônimo português teria feito a sua a partir da tradução francesa de Claude-Étienne Savary, a qual é efetivamente precedida por um resumo da vida do Profeta Muhammad (saas).
A segunda tradução, ainda segundo Míkel de Epalza, seria de um tradutor anônimo brasileiro, "sem ano de edição, mas parece que do século XX".

Por fim, as três notícias bibliográficas que tendem a confirmar a data da edição brasileira foram encontradas nos catálogos da Biblioteca Nacional do Brasil, da Biblioteca Nacional da França e do Système Universitaire de Documentation (Sudoc) da França. A primeira, no catálogo antigo de obras raras da BN do Brasil, possui a seguinte descrição: Alcorão, Traducção portugueza cuidadosamente revista, Rio de Janeiro, B.L. Garnier, 1882, 553 páginas. A segunda, no catálogo da BN da França, confirma integralmente a descrição anterior. E a terceira, no catálogo do Sudoc, ratifica as notícias dos dois outros catálogos e detalha mais a informação, segundo a qual houve uma edição múltipla desta tradução no ano de 1882, a saber: no Rio de Janeiro (B.-L. Garnier), em Paris (E. Belhutte) e em Lisboa (Bertrand). E completa: "P. de titre en arabe en regard de la p. de titre. - Daté d'après le timbre du d.l."

Portanto, ainda que não haja elementos definitivamente conclusivos, pois não podemos afirmar se seria um tradutor anônimo português ou se seria brasileiro (ou de outro país lusófono), ou ainda se seria uma retradução (ou não) da versão francesa de Savary (sem o resumo da vida do Profeta), não obstante isso, é categórico que a edição, cuja capa e folha de rosto apresentamos abaixo, é de 1882 e constitui a primeira tradução completa ao vernáculo português do Nobre Alcorão, de que se tem notícia.
Allahu Áalam.
Allah sabe melhor.
Anônimo - 1882
Alcorão - Tradutor Anônimo - 1882 (capa)
Alcorão - Tradutor Anônimo - 1882 (rosto)

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FONTES:
1. José Pedro Machado. Alcorão. 2ª edição, Lisboa, Junta de Investigações Científicas do Ultramar, 1980, páginas 4-7
2. Muhammad Hamidullah. Le Saint Coran. 12ª edição. Paris, Maison d'Ennour, 1406 (1986).
3. Míkel de Epalza, Josep Forcadell y Joan Perujo. El Corán y sus traducciones: propuestas. Alicante, Universidad de Alicante, 2008, páginas 115-117. [1]
4. Adel Sidarus. Nota Sobre as Traduções Portuguesas do Corão. In: Revista Qurtuba - estudios andalusíes, Córdoba, vol. 5 (2000), pp. 277-280.
5. Abdoolkarim Vakil. Do Outro ao Diverso - Islão e Muçulmanos em Portugal: história, discursos, identidades. In: Revista Lusófona de Ciência das Religiões, Lisboa, Ano III (2004), n.º 5-6, pp. 283-312. [2]
6. İsmet Bi̇nark, Halit Eren, Ekmeleddin İhsanoğlu. World bibliography of translations of the meanings of the Holy Quran - printed translations: 1515-1980. Istambul, Research Centre for Islamic History, Art and Culture, 1406 (1986), 880 p. [3]
7. Catálogo antigo de obras raras da Biblioteca Nacional do Brasil. [4]
8. Catálogo da Biblioteca Nacional da França. [5]
9. Catálogo do Système Universitaire de Documentation (Sudoc) da França. [6]

domingo, 9 de fevereiro de 2014

A Revolta dos Malês


Negro de origem muçulmana, por Debret [1]
A História do Islamismo no Brasil, além do processo da imigração árabe, necessariamente passa pela Revolta dos Malês, na Bahia.
Arrancados de suas terras e de suas casas e separados de suas famílias na África pelo odioso tráfico negreiro, os muçulmanos negros chegavam ao Brasil como escravos e eram impedidos de praticar sua religião ancestral, sofriam a conversão forçada, porém não aceitavam a imposição da religião predominante de seus senhores brancos.
Apesar de todo o sofrimento e terríveis adversidades, mantiveram suas raízes e conservaram-se fiéis ao Islam.
Muçulmanos negros (escravos e libertos), pertencentes principalmente aos povos iorubá, haussá e nupe, ensinavam aos filhos o idioma árabe e a recitação e memorização do Nobre Alcorão.
Talvez tenham sido eles os primeiros a praticar a difusão do Islam (dawah) e o esforço pela causa de Allah (jihad) no Brasil [2].

Em 1835, em Salvador, organizaram a Revolta dos Malês, um acontecimento histórico originário, imprescindível para a compreensão da História do Islam em terras brasileiras.
Seus principais líderes foram os alufás (mestres muçulmanos) Ahuna e Pacífico Licutan, ambos escravos, e Manoel Calafate, liberto.
A Revolta foi rapidamente sufocada pelas tropas imperiais e muitos de seus integrantes foram condenados a penas cruéis, como o banimento e a morte.

José Pedro Machado, em sua tradução portuguesa do Sagrado Alcorão (2ª edição, Lisboa, 1980, págs. 20-21), faz referência à versão Malê da primeira surata do Nobre Alcorão (Al-Fatiha), a qual transcrevemos literalmente:

"Ali-ramudo lilái Rabili alamina
A ramano araini
Maliqui iáu midina
Ia canan aludo Oiá canan cita-ino
Errê diman cirata Ali mucitaquino
Cirata alazina Ani-amutá alê-im
Gair-le-mangalobê Alei-y-uá-la-lolina."

A Revolta dos Malês está inserida nos grandes movimentos históricos de emancipação e libertação dos povos negros no Brasil, tais como o Quilombo dos Palmares (em Alagoas, na segunda metade do século 17), a Revolta dos Búzios (ou Conjuração dos Alfaiates, na Bahia, em 1798), a Revolta de Manuel Congo (no Rio de Janeiro, em 1838), a Revolta de Cosme Bento (durante a Balaiada, no Maranhão, em 1840), a Revolta do Queimado (no Espírito Santo, em 1849) e a Revolta da Chibata (no Rio de Janeiro, em 1910).

Uma preciosa e fundamental fonte de estudo dessa Revolta é a obra de João José Reis: "Rebelião Escrava no Brasil - a História do Levante dos Malês em 1835". São Paulo, Companhia das Letras, 2012, 3ª edição, 665 páginas.

João José Reis - Rebelião Escrava no Brasil

Uma outra obra importante, cujo mérito principal consiste em ser a primeira a sistematizar informações sobre a Revolta, é o livro de Décio Freitas: "A Revolução dos Malês - insurreições escravas". Porto Alegre, Editora Movimento, 1985, 2ª edição, 104 páginas. [1ª edição, 1976]

Décio Freitas - A Revolução dos Malês

Outra referência a ser destacada (em que seu autor contesta alguns pontos de vista de João José Reis) está presente no capítulo intitulado “Sobre a rebelião de 1835 na Bahia” no livro do ilustre africanólogo Alberto da Costa e Silva: “Um rio chamado Atlântico: a África no Brasil e o Brasil na África.” Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira, 2011, 2ª edição, 288 páginas. [3]

Alberto da Costa e Silva - Um rio chamado Atlântico

Ainda que indiretamente relacionada à Revolta dos Malês na Bahia, há a notável biografia de Rufino José Maria, um escravo oriundo do Reino de Ọ̀yọ́ que viveu em Salvador, Porto Alegre, Rio de Janeiro e Recife. Entre os malês de Recife, onde houve rumores de uma conspiração africana, em 1853, Rufino tornou-se um alufá, um mestre malê ou um líder religioso muçulmano. A vida de Rufino encontra-se na obra coletiva de João José Reis, Flávio dos Santos Gomes e Marcus Joaquim de Carvalho: “O Alufá Rufino - Tráfico, escravidão e liberdade no Atlântico Negro (c. 1822 - c. 1853).” São Paulo, Companhia das Letras, 2010, 1ª edição, 520 páginas.

Reis, Gomes e Carvalho - O Alufá Rufino

Informações sobre o comportamento, costumes e hábitos dos Malês são encontráveis, passim, na obra do insigne autor afrodescendente e abolicionista Manuel Raimundo Querino: "Costumes africanos no Brasil." Salvador, Eduneb (Editora da Universidade do Estado da Bahia), 2010, 332 páginas.  1ª edição, Rio de Janeiro, Editora Civilização Brasileira, 1938, 351 páginas, organizada por Arthur Ramos. [4]

Manuel Querino - Costumes africanos no Brasil


No âmbito literário, há o romance histórico, em que se destaca a figura feminina da nagô alforriada Luísa Mahin, de autoria de Pedro Calmon: "Malês - a Insurreição das Senzalas". Rio de Janeiro, Editora Pro Luce, 1933, 1ª edição, 166 páginas.  2ª edição, Salvador, Academia de Letras da Bahia / Assembléia Legislativa da Bahia, 2002, 142 páginas. [5]

Pedro Calmon - Malês: a insurreição das senzalas

Do jornalista e cartunista Maurício Pestana, foi publicada a notável cartilha "Revolta dos Malês – A saga dos muçulmanos baianos". Salvador, Escola Olodum, 2010. Distribuída gratuitamente nas escolas, a cartilha constitui importantíssima iniciativa na inclusão da temática afro-brasileira nos currículos escolares.

Maurício Pestana - Revolta dos Malês
Ainda que não relacionada à Revolta dos Malês, mas importante na descrição das condições de vida de um escravo muçulmano em terras brasileiras (Pernambuco, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul), vale citar a obra autobiográfica de Mahommah Gardo Baquaqua (nascido no atual Benin e falecido na Inglaterra, c. 1830 - c. 1857) intitulada "Biografia de Mahommah Gardo Baquaqua, um nativo de Zoogoo, no interior da África"  (São Paulo, Editora Uirapuru, 2017, 80 págs.).

Mahommah Gardo Baquaqua - Autobiografia

Notas:

[1] Crédito da pintura: Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil, por Jean Baptiste Debret (1768-1848). Belo Horizonte, Editora Itatiaia, 2006, volume único, 409 páginas.
[2Sobre a dawah, João José Reis afirma: "Velhos malês muitas vezes procuravam atrair malês novos. Os documentos da devassa sugerem um forte movimento de proselitismo e conversão em curso na Bahia da década de 1830" (in: Rebelião Escrava no Brasil, página 180). Sobre a jihad, vide o artigo de Paul E. Lovejoy: Jihad e escravidão: as origens dos escravos muçulmanos da Bahia. In: Revista Topoi, Rio de Janeiro, nº 1 (2000), pp. 11-44 (Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, Universidade Federal do Rio de Janeiro, para download). Contudo, não compartilhamos em absoluto do conceito de jihad postulado pelo orientalista Lovejoy, equivocadamente identificado com a noção cristã medieval de "guerra santa", de todo estranha ao Nobre Alcorão, à Sunnah e aos Ahadith. A propósito, em árabe a palavra "guerra" é حرب (harub), vocábulo em absoluto distinto de "jihad" (جهاد‎), cujo significado em árabe é "esforço".
[3]  Também contendo o grave equívoco conceitual em relação à jihad apontado na nota anterior, o capítulo do livro de Alberto da Costa e Silva, sob a forma de artigo, de 2002, está disponível no site da ABL (Academia Brasileira de Letras) para leitura on-line.
[4 A propósito, é do antropólogo Arthur Ramos uma descrição física dos malês: "eram altos, fortes, robustos e trabalhadores. Usavam uma barba a cavanhaque. De vida privada regular e austera, não se misturavam com os outros escravos." In: O Negro na Civilização Brasileira. Rio de Janeiro, Editora Casa do Estudante do Brasil, 1971, pág. 37, 2ª edição, 252 páginas. GoogleBooks
[5] Sobre a malê Luísa Mahin, vide artigo na Wikipédia.